Minha profissão é…

Maria Eduarda tomava seu lanche em um shopping enquanto suspirava constantemente. Razões para ela não faltavam, já que era o emprego nº 7 que ela perdia. Isso mesmo, o sétimo trabalho em que ela saía. Mas o espantoso era que não tinha sido por questões de competência. Ela mesma se demitia.

Você pode estar se perguntando que ela é uma daquelas meninas ricas e mimadas, que cansou de brincar de trabalhar e resolveu sair do jogo. Mas pelo o contrário. Ela nasceu em uma família classe média e nada veio de mão beijada.

Durante a época do ensino médio, todo mundo tinha que escolher uma profissão. Maria Eduarda não sabia o que queria ser. Resolveu fazer então um teste vocacional. “Deixa que ele escolha por mim”, pensou. Respondeu as perguntas e o resultado veio: medicina. Ela sempre tirava boas notas em física e biologia e então pensou que poderia ser uma alternativa.

Estudou tanto para passar em uma universidade pública que conseguiu. Mas no segundo período teve aula de anatomia. Começou a suar frio e se sentir tonta e enjoada. Vomitou na frente de todos os seus colegas de turma e do professor. Saiu correndo da sala e nunca mais voltou. Trancou a matrícula.

Andando sem rumo pela universidade escutou uma professora dando a primeira aula de psicologia. Achou fascinante o estudo pelo comportamento e sentimento humano. Decidiu entrar na sala para escutar a aula e tratou de ir a secretaria fazer a transferência. Ela estava entusiasmada e acreditava ter encontrado sua profissão.

Se formou e começou a trabalhar em um hospital. Seu primeiro paciente era um homem, de 30 anos, que dizia ter um compulsão. Adorava pés. Não conseguia mais se relacionar com as mulheres porque só tinha olhos para seus pés. Maria Eduarda começou a recolher os seus. Não deu outra. Enquanto o homem falava ele olhou para os pés dela que estavam com sandálias e unhas feitas. Caiu no chão e começou a beijá-los. “Que pés lindos. Maravilhosos.” Maria Eduarda chamou a segurança e saiu do hospital pra também nunca mais voltar. Psicologia na teoria era ótimo, mas a prática não muito.

Já que na área médica tudo foi por água abaixo, se candidatou à outras vagas. Secretária não deu certo depois do chefe cantá-la e ainda por cima com a esposa presente. Vendedora também não porque era sincera demais. “O vestido tem que ser de outro tamanho. Desculpe mas a senhora não cabe neste aqui”. Muitas idas e vindas. Muita frustração. E choro.

Voltando ao lanche do shopping, Maria Eduarda estava triste e perdida. Será que ela não tinha nascido para ser nada? O que seria do seu futuro? Sentiu a vontade de desabafar e escreveu tudo que aconteceu. Um dia sua mãe encontrou seus papéis e achou a maneira de sua filha escrever muito boa. Disse para tentar achar uma editora que publicasse o material. Maria Eduarda, meio sem esperança, seguiu o conselho da mãe. Não é que deu certo?

Virou best seller. Maria Eduarda não acreditava que levava jeito para escrever. As pessoas achavam engraçado suas histórias trágicas. Tinha gente que queria até fazer uma comédia sobre o livro.

Semana depois a moça volta a sentar no mesmo banco do shopping para tomar seu lanche habitual. Olhou para frente e viu na livraria seus livros, colocados na área de destaque. Suspirou e deu um largo sorriso. Nunca iria adivinhar que não ter uma profissão foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida.

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About Bárbara Gaia

Vivo no fantástico mundo digital e da redação publicitária. https://about.me/bngaia

One response to “Minha profissão é…”

  1. Rafael Malhado says :

    Isso dá um ótimo curta-metragem hein? Da onde tiraste essa história? Fiquei interessado em produzir… Parabéns pelo blog, mais uma vez!!!

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