Quem diria Seu Nélio

Parte 1

Seu Nélio nasceu no interior de Minas Gerais. Na verdade nasceu, cresceu e continua vivendo na pacata cidadezinha. Filho de Seu Damião e Dona Ana, desde cedo aprendeu que na vida nada vem de graça. Mal tinha saído das fraldas e já cuidava da roça junto com a mãe e cavalgava para cuidar da boiada acompanhado do pai. Ele não achava que era de fato uma boiada porque mal tinha meia dúzia de bois e vacas pastando em frente de casa mas Seu Damião fica bravo com a observação do filho. Ele não aceitava que Seu Nélio, com seus 10 anos, fizesse pouco caso das coisas:

– Não importa se é muito ou pouco meu filho. É fruto do nosso trabalho. Trate de ter orgulho, uai!

Foi assim Seu Nélio aprendeu a valorizar o que tinha, por mais simples que fosse. Ele lembra, como se fosse hoje, da primeira vez que ganhou pelo seu trabalho. Foi uma felicidade só. Todo dia ele colhia o tomate, a cenoura e o milho da horta, junto com o leite ordenhado das vacas e levava para a mercearia do Seu Luis, que ficava na praça do centro da cidade. O trajeto até lá era longo, levava quase uma hora na carroça. Mas Nélio não ficava emburrado não. Durante o caminho, ele e seu pai ficavam cantarolando as músicas da roda de viola que acontecia sempre todas as sextas, à tardinha, na casa do Nhô Gerônimo. Nélio adorava ir porque tinha a comida boa que a esposa do Gerônimo fazia. O bolo de milho verde era o melhor. Nélio se entupia de bolo. Dona Ana falava:

– Para de comer tanto bolo fio. Vão pensar que eu não te dou de comer.

Mas a senhora Luzia, esposa do Nhô Geronimo, sempre com sua voz doce, tão doce quanto os quitutes que ela fazia, respondia:

– Deixa o menino comer Ana. Ele tá em fase de crescimento.

Dona Ana então acenou com a cabeça e disse:

– Ta bom. Mas não carece de você comer nessa pressa toda. Vai acabar passando mal menino!”

Todo mundo se reunia perto de uma imensa pitangueira. A árvore era cheia de galhos, de folhas bem verdes e de frutos deliciosos. Enquanto a musica corria solta, Nélio segurava em uma mão os quitutes da senhora Luzia e na outras as pitangas que pegava da árvore. Entre uma mastigada e outra, tentava acompanhar a melodia com o pé e, de vez em quando arriscava cantar um pouquinho. Ficava feliz de estar ali e satisfeito com sua pança cheia.

Mas voltando a história do primeiro dinheiro que Nélio ganhou só para ele, enquanto terminava de descarregar os legumes e o leite na mercearia, Seu Luis olhou para o menino e falou:

– Fico muito contente em ver o gosto que você tem de ajudar seu pai. Pode ser a caixa mais pesada, nunca escutei um só “ai” que fosse. Deve se orgulhar desse menino, né Damião?

O pai então responde com um sorriso no rosto:

– Nélio é um fio danado de bão. Nunca me deu desgosto. Só felicidade.

A essa altura Nélio ficou mais vermelho que o tomates que carregava. Mas a timidez vai logo embora quando vê seu Luis tirar uma moeda do bolso.

– Tome Nélio. Isso é pelo bom trabalho que você fez.

O menino nem podia acreditar. Uma moeda brilhante em suas mãos. E como brilhava. Tratou de colocar logo no bolso e durante a volta para casa checava para ver se a moeda ainda estava lá. Voou para seu quarto e botou a moedinha em cima do travesseiro. Sentou na cama e ficou a pensar o que fazer com aquele dinheiro. Doce? Picolé? O que fazer?

Seu Damião chegou no quarto e ao olhar seu filho com a cabeça apoiada em uma das mãos enquanto os dedos da outras batucavam sem parar, indicando que ele estava pensando em alguma coisa, disse:

– Bom fio, que vai fazer com seu dinheiro? Mais importante que ganhar é saber como vai gastar.

Nélio fica surpreso ao escutar a voz do pai, vira para ele e responde:

– Eu sei, meu pai. Pode deixar que vou gastar essa moeda direitinho. Damião esfregou a mão na cabeça do menino, sorriu e saiu do quarto. Nélio ficou a pensar, pensar e pensar. Resolveu deixar a moeda guardada para depois ver o que fazer com ela.

Trabalhar na roça não era fácil. Capinar um terreno dava um trabalho danado. Em compensação nunca faltava comida em cima da mesa. Infelizmente teve um vez que uma praga infestou a roça e todo o plantio foi por perdido. Dona Ana e Seu Damião ficaram desesperados porque só teriam o leite das vacas para sustentar a família e eles só tinham duas.

– O que vamos fazer homem? Como vamos dar o que comer para nossos filhos?

Damião olhou para o que as pragas fizeram com sua horta, colocou as duas mãos na cabeça e se agachou. Fez um baita de um esforço para não chorar. Não podia mostrar para sua família que também estava desesperado. Respirou fundo e levantou. Pegou seu casaco e sua carroça e decidiu ir para a cidade.

– Vou na mercearia do Seu Luis para um dedo de prosa. Espero que volte com alguma uma solução.

Quando sua mãe contou a notícia para Nélio e seus irmãos, o menino ficou muito triste. Olhou para o plantio devastado pelas pragas. Não sobrou nada, nem um tomate, nem um milho, muito menos uma cenoura. Nadica de nada. Entrou em seu quarto e ficou a pensar. Queria encontrar uma saída para esse problemão. Deitou na cama e ficou a olhar para o teto. O teto tinha algumas infiltrações. Nélio pegou dois de seus dedos e fingiu que eram duas pernas, na verdade um homem que andava por uma trilha. “Queria que essa estrada desse a uma horta cheia de verduras e legumes”, pensou.

”Quem Diria Seu Nélio” foi um conto criado para o concurso Literatura Para Todos. O objetivo, segundo o Ministério da Educação que realiza o concurso, é “constituir um acervo bibliográfico literário específico para jovens, adultos e idosos recém alfabetizados e criar uma comunidade de leitores”. Infelizmente meu conto não foi um dos selecionados e agora que o concurso acabou resolvi então colocá-lo aqui no Palavras aos Pixels. Espero que gostem.

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About Bárbara Gaia

Vivo no fantástico mundo digital e da redação publicitária. https://about.me/bngaia

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