Quem diria seu Nélio

Parte 2

Continuou a “andar” pela estrada até que parou de frente ao armário. Imaginou ser uma caverna. Quem sabe encontraria um tesouro escondido? Então olhou de um lado para o outro, respirou fundo e entrou na “caverna”. Se desviou porque viu morcegos vindo em sua direção. Pisou no chão com cuidado para não cair em nenhuma armadilha. Até que viu no alto de uma pedra seu “tesouro”. Bem, o alto da pedra era a prateleira do velho armário mas a aventura continuava do mesmo jeito. Foi subindo, subindo e zapt! pegou o baú. Sai do armário num pulo porque mais morcegos vinham em sua direção. Caiu na cama rindo de tudo que sua mente tinha criado.

Olhou sua caixa que serviu de baú do tesouro. Era uma pequena caixa onde ele guardava os bonecos e carrinhos que criava com pedra, gravetos e folhas. Seus pais não podiam comprar brinquedos então fazia seus próprios com o que encontrava por aí. Nélio deu um largo sorriso ao ver uns metais brilhantes por debaixo de tudo. “Minhas moedas! Tinha esquecido delas!”. As moedas que seu Luis dava a ele de gorjeta ficaram guardadas dentro da caixa porque Nélio queria comprar algo muito legal com elas e por isso ficou economizando. “Agora eu sei o que vou fazer com elas”. Pegou a caixa e correu para a sala. Viu que Damião tinha voltado da cidade e disse:

– Toma pai. Isto é para você.

Damião não podia acreditar.

– Fio, o que é isso?.

Ana estava varrendo a sala e largou a vassoura para falar com Nélio.

– Querido, o que você está fazendo?

Nélio abriu a caixa, tirou todas a moedas e falou

– Mãe, pai, a nossa lavoura foi atacada por pragas. Nossa família precisa de comida e sem as verduras e legumes da horta fica difícil. Estava guardando essas moedas que Seu Luís da mercearia me dava mas agora quero dar para vocês. Sei que é pouco mas pode ajudar a gente por hoje.

Os olhos de Ana se encheram de água e Damião ficou sério. Não era sério de dar bronca mas sério de orgulho.

– Fio, cê não sabe da alegria que me deu! Mas não carece de dar suas moedas. Falei com Seu Luís e ele me deu trabalho na mercearia dele enquanto a gente volta a preparar a terra. Mas cê não sabe o orgulho que me deu agora!

Ana foi até Nélio e lhe deu um forte abraço junto com um beijo na testa.

– Nélio hoje cê não é mais o meu menino. Hoje cê é um homem.

Nélio ficou confuso.

-Sou um homem? Tenho só 12 anos mãe. Nem pelo no rosto tenho ainda…

Damião riu.

– O que sua mãe quis dizer fio é que cê teve hoje uma atitude de homem. Não é mais uma criança. Cê cresceu.

– Cresci? Cresci mesmo?

Nélio realmente cresceu. Cinco anos haviam se passado e o menino virou um rapaz. Um rapaz muito do namoradeiro, diga-se de passagem. Sempre arrumava um rolo aqui e acolá com as meninas das fazendas e do centro da cidade também. Seu ponto forte era a serenata. De tanto participar das rodas de viola quando era pequeno, conseguiu aprender, sozinho, a tocar violão. Entre uma tarefa e outra, quando tinha tempo, tratava de arranhar alguma coisa nas cordas. E para a sua surpresa e a de todo mundo, tinha uma bonita voz. Parecia de cantor profissional. E Nélio, que não era bobo nem nada, usava isso ao seu favor na hora da conquista.

– Um dia essas meninas vão descobrir a quantidade de namoradas que cê coleciona. Quero só vê.

Nélio então responde a Raimundo, seu melhor amigo.

– Não carece de preocupação não, Raí. Sou muito discreto, hehehe.

De tanto o pessoal ouvir sobre a sua fama de cantor, Nélio foi convidado para cantar na quermesse da Dona Branca em comemoração ao dia de São João. A cidade estava toda enfeitada para a festa. Tinha bandeirinhas, fitas, flores e tudo mais que você possa imaginar para deixar as barraquinhas bem arrumadas. A festa de São João era bem conhecida por toda Minas Gerais e pessoas de outras cidades vinham para festejar.

Nélio estava nervoso. Não sabia que podia caber tanta gente em um só lugar. Começou a sentir o coração acelerado e o suor escorrer pelo rosto. As mãos estavam frias e a barriga doendo de ansiedade. Olhou para a multidão, subiu no palco improvisado e sentou no banquinho. De repente o medo tomou conta do rapaz e um branco veio em sua direção. Tinha esquecido como se tocava, da letra da música, de tudo. Não sabia o que fazer, se saia correndo ou desmaiava. Quando ia por em ação a primeira alternativa se deparou com uma visão.

Uma visão de cabelos longos, lisos e pretos, vestido rosa florido e um rosto encantador. Nunca tinha visto a garota antes. Devia ser de outra cidade. Ela era realmente linda e parou em frente a quermesse para vê-lo cantar. Nessa hora, sem explicação, a melodia foi aparecendo e a música saindo. Nélio olhava para a menina o tempo todo que, com vergonha, sorria e abaixava a cabeça. Suas irmãs, que estavam junto dela, também repararam e começaram a rir e cochichar entre si. A música, falava sobre amor à primeira vista, bem ao estilo sertanejo de ser. Escolha que Nélio fez de propósito, é claro. Quando terminou ele agradeceu mas ao olhar em volta a garota tinha sumido. Desceu como uma bala do palco, quase derrubando tudo. Nem Dona Branca teve tempo de agradecer e dar um dinheirinho pela participação.

Nélio corria pelo centro da cidade a procura dela. Queria saber seu nome, sobrenome, onde mora e se teria alguma chance com ela. Procurou em cada barraca, cada canto, até dentro da igreja e não encontrou vestígio dela. Parecia mesmo que ela foi fruto da sua imaginação. “Será que foi um sonho?”.

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About Bárbara Gaia

Vivo no fantástico mundo digital e da redação publicitária. https://about.me/bngaia

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