O dia D

Zuleide estava animada e apreensiva. Tinha conseguido uma entrevista para o cargo de secretária em um escritório de advocacia do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Quando a mãe soube acendeu uma vela a Santo Antônio, seu santo de devoção, para agradecer pela graça alcançada.

Pediu emprestado a chapinha de cabelos da amiga, comprou um terninho pago em 15 vezes e um sapato pago em outras 10 parcelas. Não queria parecer que estava precisando do emprego e sim que a firma precisava dela.

Saiu 2 horas antes da entrevista para não chegar atrasada. Andou por 10 minutos até pegar o ônibus sentido Centro. Ficou chateada de ver que a passagem aumentou, afinal estava com o dinheiro contadinho. Lembrou que tinha colocado um extra dentro da sua agenda e ficou mais tranqüila. Sentou no banco, pegou seu celular, ativou no modo rádio e ficou escutando a música para tentar se acalmar.

Abriu a bolsa para pegar a pasta que tinha colocado o currículo, quando sente um pedaço de metal frio em sua nuca. Pensou “Tá de sacanagem, né?”. Quando tirou os fones do ouvido só escutou o cara atrás dela dizer: – Pode passando a carteira e o celular.

Suou frio e engoliu seco. Não podia estar acreditando que seria assaltada. Ainda mais na ida para sua entrevista. Infelizmente nada podia ser feito. Entregou a carteira e o celular. Só conseguia olhar para baixo bufando de ódio. Nisso escuta uma voz de mulher dizendo:

– Os sapatos também, tá?

– Meus sapatos?!

– É surda? Tira eles já! Anda!

A dupla de assaltantes era composta por um homem e uma mulher. O cara ia logo no dinheiro e objetos eletrônicos. A mulher pegava tudo que era artigo feminino. Ela pedia para as mulheres abrirem as bolsas para ver se tinha maquiagem e perfume “dos bom”, como ela chamava. Olhava os colares, pulseiras e brincos para ver se algum valia a pena pegar também. Quando botou os olhos nos sapatos de scarpim de Zuleide não deu outra. Tratou de exigir eles fora de seus pés. Zuleide olhava com cara de espanto.

“Como assim meus sapatos?! Eu preciso deles para entrevista sua louca!” pensou.

Mas com um bandido não tem negociação. Ainda mais se está com uma arma em punho. Quase chorando Zuleide entrega seus lindos sapatos. O bandido avisa ao motorista que vai descer e que é para todos olharem para baixo. O casal Boni e Claide (sim, porque chamá-los de Bonnie e Clyde seria muita pretensão) desce do veículo e Zuleide começa a xingá-los de tudo quanto era nome.

– Vocês não estão entendendo. Eu estou indo para uma entrevista de emprego. Como vou aparecer descalça?!

– Aonde é a entrevista? – disse uma moça.

– No centro da cidade.

– Ah! Lá tem muitas lojas baratinhas. Você vai encontrar um par de sapatos rapidinho. Toma, fica com os meus chinelos. Eu trabalho de salto e vou com de chinelo porque às vezes não dá né? Depois compro outro na loja.

– Poxa, muito obrigada mesmo! – disse Zuleide.

– Eu ajudo porque nunca sei quando vou precisar ser ajudada, não é mesmo?

Zuleide chega perto da rua Presidente Vargas e faz sinal para ver se arruma algum sapato no camelódromo da Uruguaiana. Faltam 30 minutos para entrevista, então tem algum tempo para pesquisar. Procura de lá, procura daqui e finalmente acha uma sapatilha bonitinha por R$ 20,00.

“É todo meu reserva mais a passagem! O que vou fazer?” Ligou então para seu namorado, que é taxista, explicou a situação que passou e ele diz que vai buscá-la depois sem problemas. Zuleide fica aliviada, paga o sapato e vai rumo ao escritório de advocacia. “Não era aquele scarpim lindo que a assaltante mocréia levou mas dá pro gasto”.

Andando até a Avenida Rio Branco, onde ia ser a entrevista, viu uma nuvem branca enorme se aproximando. O que era branco virou cinza e o que era cinza ficou preto em menos de 5 minutos. Começa a cair uns pingos de água do céu e Zuleide procura pelo guarda-chuva que não acha na bolsa. “Só me faltava essa!”

Mal terminou a frase e cai um pé d’água, mandando o cabelo arrumado pela chapinha embora. Ensopada, chega ao escritório, pede desculpas pelo estado mas é informada que a entrevista foi ontem e que a candidata já tinha sido escolhida. Soltou mais um “Tá de sacanagem!” e foi embora.

Esperou pelo namorado taxista e voltou para casa. Ao relatar tudo que aconteceu para a mãe, a senhora tratou de pegar o Santo Antônio, virá-lo de cabeça para baixo e jogá-lo no armário.

– Mãe, depois de tudo isso você pensa em casamento?!?!

– Não minha filha. É castigo mesmo. E ele só sai de lá depois que se redimir com a gente.

– E devolver meu scarpim porque ainda estou pagando por ele. – completou a filha.

Esse foi mais um conto que tinha criado para o Concurso Contos do Rio, do Caderno Prosa & Verso e que acabei descartando porque só podia enviar um texto apenas. Também espero que você tenha gostado. 🙂

Anúncios

Tags:, , , , ,

About Bárbara Gaia

Vivo no fantástico mundo digital e da redação publicitária. https://about.me/bngaia

Comenta aí!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: