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#EuLi: Placas Tectônicas

Não lembro muito bem como encontrei as ilustrações de Margaux Motin mas lembro muito bem da minha reação de: “Curti!!!!”

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Imagem: reprodução

No livro Placas Tectônicas a ilustradora francesa narra com muito humor, honestidade e emoção a sua vida pós-divórcio. Aos 35 anos e com uma filha pequena, ela teve que aprender a encontrar o equilíbrio entre ser mãe, mulher e artista.

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Imagem: Minha mesmo, rs. 🙂

Entre o surgimento de novos desafios e também de um novo amor, Margaux descobre que a vida às vezes não sai como planejado mas isso não precisa ser algo ruim.

No final você entende, muito bem, a escolha do título desta incrível, divertida e emocionante jornada.

Quem diria Seu Nélio

Parte 6

Nélio e Raimundo voltaram para casa. Depois do susto, Raimundo não conseguia acreditar onde o amigo arranjou tanta coragem para enfrentar um homem com um facão. Tudo por causa de uma menina que ele mal conhecia. Nélio explicou que o amor faz dessas coisas, torna a gente cego e meio burro. Raimundo deu uma gargalhada e depois ficou sério ao perguntar como Nélio ia falar para os pais deles sobre essa situação. “Seja o que Deus quiser, Raí.”, respondeu Nélio.

Nélio chegou em frente a sua casa mas seus pés não conseguiam andar mais. Ficou parado, sem saber por onde começar a prosa. Afinal ele tinha matado aula para ver Cecília. Começou a sentir um frio na barriga pois sabe como Seu Damião é com responsabilidade. Ainda mais com estudo. Engoliu seco mais uma vez e foi enfrentar a fera.

– Tarde mãe, tarde pai.

– Demorou para voltar da escola, fio. – disse Seu Damião

– Preciso ter um dedo de prosa com cês dois.

– Algum problema com a escola? – falou Dona Ana.

– Não mãe. Quer dizer, acho que sim também.

– Também?

– Hoje não fui a aula.

– Faltou a aula?! – disse Seu Damião um pouco bravo.

– Faltei a aula para ir a Mariana.

– Quê diacho cê foi fazer em Mariana? E ainda por cima faltou a aula por causa disso? Cadê a responsabilidade?

– Desculpa pai mas tive que encontrar Cecília.

– E quem é Cecília? – perguntou a mãe.

Nélio acabou falando tudo. Da festa de São João, da Cecília e do pai de Cecília. Disse que foi amor à primeira vista e que não podia evitar. Disse também que a família de Cecília viria amanhã de tarde para conhecer a família dele. Dona Ana disse para Damião colocar Nélio de castigo e ir até Mariana desfazer toda essa bagunça. Nélio, muito sério, disse que já era um homem feito, que amava Cecília e que nada, nem ninguém, iria impedir.

Seu Damião olhou para a esposa, olhou para Nélio, olhou para cima e disse que o filho já era mesmo um homem. Lembrou a Ana que o começo de namoro deles também não foi fácil e que Damião teve muito trabalho para convencer o pai de Dona Ana a deixá-la namorar com ele.

Dona Ana teve que concordar. Sabia que não podia fazer nada. Nélio era igual a Damião, quando colocava uma coisa na cabeça não havia ninguém que tirasse.

– Tudo bem, fio. A gente vai conhecer essa família. Tem certeza que essa menina é a menina certa pra ti? – disse Seu Damião.

– Sim pai.

– Ela é moça prendada? – disse Dona Ana.

– Sim mãe.

Os pais de Nélio enfim concordaram. No dia seguinte veio a família dos Silva e todos se reuniram na sala. Seu Waldir conversava com Seu Damião, Dona Ana com Dona Rita e Nélio era só olhos para Cecília. A moça sorria para ele mas ficava o tempo todo do lado da mãe. Queria mostrar para a família de Nélio que era moça direita.

Depois de muito blá-blá-blá, os dois chefes de família apertaram as mãos e Seu Waldir enfim aceitou o pedido de Nélio. O rapaz era uma felicidade só. Dava gosto de ver. As família então saíram da sala para o casal poder se conhecer melhor. Mas sempre de olho nos dois.

Nélio cantou uma música que fez especialmente a Cecília e lhe entregou uma carta de amor escondido. Cecília ficou mais uma vez vermelha de vergonha. Na hora dos Silva ir embora, Cecília disfarçadamente pegou uma flor do jardim e deu um beijo nela. Entregou para Nélio e foi embora junto com sua família. Nélio não conseguiu dormir naquela noite. Tratou de colocar a flor na água e ficou deitado na cama olhando para teto e fazendo planos para o futuro.

Futuro que já tinha dado as caras e virou presente. Parece que tinha sido ontem o dia que tudo isso aconteceu mas um ano já havia se passado. Nélio e Cecília estavam casados e felizes. Ele cuidando dos negócios da mercearia do Seu Luis. Seu Luis iria se mudar com a família para o Rio Grande do Sul para abrir uma sociedade junto com seu primo. Não sabia o que fazer com a mercearia. Nessa hora, Nélio, que não era bobo nem nada, pediu se podia cuidar do estabelecimento. Falou que ia dividir os lucros 60% para Seu Luis e 40% para ele. O dinheiro mandaria para o Rio Grande do Sul. Seu Luís aceitou a proposta e Nélio, que antes trabalhava na roça, já tinha um negócio próprio.

Cecília ficou orgulhosa do marido. Nunca perdia uma oportunidade e estava sempre correndo atrás de melhores condições para ele e sua esposa, que meses depois descobriu que estava grávida. Foi uma surpresa. Nélio estava se preparando para ir trabalhar na mercearia, tomou o café da manhã, limpou as botas, ajeitou o cabelo e deu um beijo em Cecília. Quando ele estava abrindo a porta para sair Cecília disse:

– Faltou o beijo de bom dia!

– Ô muié, mas eu te beijei.

– A mim sim mas ao teu filho não.

Cecília apontou para a barriga. Nélio arregalou os olhos e foi correndo dar um abraço na esposa.

– Vamos ter um fio?

– Sim vamos ter um filho.

Nélio não sabia se ficava feliz ou preocupado. Saiu de casa com uma nova determinação: aumentar a renda para poder cuidar do mais novo membro da família. Ele queria dar o melhor para seu filho e passar para ele tudo que aprendeu com seu pai. Trabalhou com ainda mais dedicação na mercearia. Desenvolveu novas ideias como juntar padaria com mercearia. O resultado disso foi um aumento maior nas vendas.

Seu Luis estava impressionado com Nélio. Ele era um ótimo planejador e a mercearia/padaria estava de vento e poupa. Muito melhor do que na época do Seu Luis. Agora a divisão dos lucros era 50 por 50. Mais tarde, os negócios do Rio Grande do Sul estavam tão bem que Seu Luis decidiu vender a mercearia para Nélio. Agora ele era dono de um estabelecimento comercial. “Muito chique falar isso. Dono de um estabelecimento comercial. Tudo isso é meu! Eita nós!”, pensou.

Nélio resolveu também investir na festa de São João. Contratou músicos, construiu um pequeno parque de diversões para as crianças se divertirem. Essa novidade fez trazer mais gente e mais turistas para o local. A cidadezinha prosperava. Os habitantes cresciam a cada dia mais. E ganhou mais um com a chegada de Ricardo, o primeiro filho de Nélio e Cecília.

O menino era uma pimenta. Corria de lá para cá, não conseguia ficar parado de jeito nenhum. Cecília tentava ter toda a paciência do mundo mas tinha horas que ela pegava o travesseiro e gritava com toda a força do mundo para se acalmar. Nélio não entendia de onde vinha tanta energia e então resolveu fazer o que seu pai fazia com ele, levando o menino para a roça.

Contratou Raimundo para cuidar da mercearia na parte da manhã enquanto ensinava o filho a cuidar da terra. Isso trouxe uma certa calma para o menino e paz para sua casa. Achou muito engraçado o fato de estar voltando a cuidar do plantio e até que se sentiu bem fazendo isso outra vez. Foi o que seu pai lhe ensinou e o fez ter valor pelas coisas.

Por esse motivo, fez questão de ficar cuidando da roça pela parte da manhã. Trabalho que não parava nunca, ainda mais quando nasceu Murilo, seu segundo filho. Os três cuidavam de plantar e colher as verduras e legumes da modesta horta. Murilo era meio rebelde e não entendia porque tinha que fazer isso já que o pai tinha a mercearia.

– Isso eu faço para você criar juízo. Filho meu não vai ficar largado por aí sem ter o que fazer. Vai trabalhar para ganhar responsabilidade. Foi assim que meu pai me ensinou e graças a ele hoje sou o que sou. E vai ser assim também “cocês”.

Perdeu as partes de 1 a 5? Veja então aqui.

Quem diria seu Nélio

Parte 5

– Nélio tem um homem vindo aí com cara de poucos amigos. Acho que é o pai de Cecília.

A menina olhou para trás assustada. A suspeita de Raimundo estava certa. Era o mesmo Seu Waldir. Cecília ficou branca que nem papel. Sua irmã mais nova gritava “Entra Cecília, entra!”. Nem adiantou. Poucos segundo depois só se escutava o homem a berrar:

– Vou te pegar seu cabra safado!

Raimundo ficou uma pilha de nervos. Falava para ele e o amigo saírem correndo.

– Vamos embora Nélio! O homem pode estar armado.

– Não. Vou conversar com Seu Waldir.

– Perdeu o juízo de vez?

– Pelo contrario. Eu quero namorar Cecília e vou pedir permissão para o pai dela.

– Ai Meu Deus! Não quero morrer!

– Calma Raimundo que eu sei o que tô fazendo.

Minutos depois Seu Waldir fica cara a cara com Nélio. Manda Cecília entrar em casa. Ela pede para explicar, dizendo que não estava fazendo nada mas o pai nem quer ouvir. Dá mais uma vez a ordem e a menina obedece. Olha para Nélio com tristeza e volta para dentro de casa junto com sua irmã mais nova.

– Seu miserável! Acha que vai se engraçar com minha filha? Tá muito enganado!

– De forma alguma senhor. Tenho muito respeito para com Cecília. Quero conversar com o senhor.

– Conversar o quê?

– Gostaria de ter a sua permissão para namorar sua filha Cecília Maria da Silva.

– Hahahaha. Mas nunca terá minha permissão.

– Por quê?

– Conheço bem a tua raça. Depois que cê falou com minha filha naquele dia de São João procurei saber ao seu respeito. Você é um galanteador de meia tigela, cheio dos romances. Minha Cecília não vai cair na sua arapuca. Fique longe dela.

– Senhor, eu estou amando sua filha. Desde o momento que a vi sei que ela será a única para mim. Tive uns namoricos admito mas são águas passadas. Meu futuro é ao lado de Cecília.

– Basta. Some logo daqui antes que te corte com a minha peixeira.

Seu Waldir não estava para brincadeira. Nascido e criado em Sergipe sabe como ninguém a mexer em uma peixeira. Algumas pessoas diziam que ele fez parte do bando de Lampião mas isso são só boatos. Para o bem de Nélio era bom que fosse somente um boato.

– Não vou sair daqui antes da sua permissão. Eu amo Cecília e quero provar ao senhor que falo a verdade.

Nessa hora aparece a filha mais velha dos Silva. Eleonora tinha seus 19 anos e estava com casamento marcado. Era a mais ajuizada das três irmãs e por isso o que ela disse causou enorme surpresa a todos, inclusive ao seu pai:

– Pai, deixe o rapaz falar com você. Ele parece ser sincero. Não viria da sua cidade até aqui e tampouco enfrentar o senhor se não estivesse sério. Dá um voto de confiança.

Dona Rita, a mãe, estava chegando em casa quando viu toda a cena. Perguntou o que estava acontecendo:

– Mãe, esse rapaz se chama Nélio e quer pedir a mão de Cecília em namoro. O pai já até ameaçou de pegar a peixeira.

– Waldir, homem de Deus, não faça isso.

– Rita, deixa que eu resolvo. O moleque já vai embora.

– Com todo o respeito Seu Waldir mas não vou não. Só volto para minha cidade depois do senhor permitir que eu namore sua filha.

– Eu me lembro de você. Não foi você que veio correndo em direção a nossa carroça querendo saber o nome de minha filha do meio?

– Sim, sou eu mesmo senhora.

– Você realmente gosta de minha filha?

– Com todo o meu coração.

– Você estuda?

– Sim senhora.

– Trabalha?

– Junto com o meu pai no campo e entregando as verduras e legumes numa mercearia. Ganho gorjeta para isso.

– Muito bem. Vejo que é trabalhador, estuda e ajuda o pai. Vou dar um voto de confiança. Pode volta a ver a Cecília.

– Rita!

– Ué Waldir! O menino parece ser direito. Vamos fazer o seguinte: amanhã a gente vai até a casa dele conhecer a família. Deixar tudo certinho. Pode ser?

Seu Waldir pensou. Viu o rapaz de cima abaixo. Andou de um lado para o outro. Pediu para Cecília vir até eles. Quando a menina estava do lado de fora, ele perguntou:

– Você conhecia esse rapaz antes?

– Não meu pai.

– Acha que ele é de família?

– Acho sim. Veio até aqui pedir a permissão do senhor.

Seu Waldir acabou concordando com a situação. Amanhã então a família dos Silva iria conhecer a família de Nélio. Só tinha um pequeno detalhe. Eles não sabiam de Cecília e não sabiam que Nélio tinha faltado a aula para ir atrás de Cecília. Mas não dava para desfazer o trato. Nélio engoliu seco, concordou com os termos e sorriu para a amada. Por ela, tudo valia a pena.

Perdeu a Parte 1, 2 e 3 e 4? Veja então aqui.

O dia D

Zuleide estava animada e apreensiva. Tinha conseguido uma entrevista para o cargo de secretária em um escritório de advocacia do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Quando a mãe soube acendeu uma vela a Santo Antônio, seu santo de devoção, para agradecer pela graça alcançada.

Pediu emprestado a chapinha de cabelos da amiga, comprou um terninho pago em 15 vezes e um sapato pago em outras 10 parcelas. Não queria parecer que estava precisando do emprego e sim que a firma precisava dela.

Saiu 2 horas antes da entrevista para não chegar atrasada. Andou por 10 minutos até pegar o ônibus sentido Centro. Ficou chateada de ver que a passagem aumentou, afinal estava com o dinheiro contadinho. Lembrou que tinha colocado um extra dentro da sua agenda e ficou mais tranqüila. Sentou no banco, pegou seu celular, ativou no modo rádio e ficou escutando a música para tentar se acalmar.

Abriu a bolsa para pegar a pasta que tinha colocado o currículo, quando sente um pedaço de metal frio em sua nuca. Pensou “Tá de sacanagem, né?”. Quando tirou os fones do ouvido só escutou o cara atrás dela dizer: – Pode passando a carteira e o celular.

Suou frio e engoliu seco. Não podia estar acreditando que seria assaltada. Ainda mais na ida para sua entrevista. Infelizmente nada podia ser feito. Entregou a carteira e o celular. Só conseguia olhar para baixo bufando de ódio. Nisso escuta uma voz de mulher dizendo:

– Os sapatos também, tá?

– Meus sapatos?!

– É surda? Tira eles já! Anda!

A dupla de assaltantes era composta por um homem e uma mulher. O cara ia logo no dinheiro e objetos eletrônicos. A mulher pegava tudo que era artigo feminino. Ela pedia para as mulheres abrirem as bolsas para ver se tinha maquiagem e perfume “dos bom”, como ela chamava. Olhava os colares, pulseiras e brincos para ver se algum valia a pena pegar também. Quando botou os olhos nos sapatos de scarpim de Zuleide não deu outra. Tratou de exigir eles fora de seus pés. Zuleide olhava com cara de espanto.

“Como assim meus sapatos?! Eu preciso deles para entrevista sua louca!” pensou.

Mas com um bandido não tem negociação. Ainda mais se está com uma arma em punho. Quase chorando Zuleide entrega seus lindos sapatos. O bandido avisa ao motorista que vai descer e que é para todos olharem para baixo. O casal Boni e Claide (sim, porque chamá-los de Bonnie e Clyde seria muita pretensão) desce do veículo e Zuleide começa a xingá-los de tudo quanto era nome.

– Vocês não estão entendendo. Eu estou indo para uma entrevista de emprego. Como vou aparecer descalça?!

– Aonde é a entrevista? – disse uma moça.

– No centro da cidade.

– Ah! Lá tem muitas lojas baratinhas. Você vai encontrar um par de sapatos rapidinho. Toma, fica com os meus chinelos. Eu trabalho de salto e vou com de chinelo porque às vezes não dá né? Depois compro outro na loja.

– Poxa, muito obrigada mesmo! – disse Zuleide.

– Eu ajudo porque nunca sei quando vou precisar ser ajudada, não é mesmo?

Zuleide chega perto da rua Presidente Vargas e faz sinal para ver se arruma algum sapato no camelódromo da Uruguaiana. Faltam 30 minutos para entrevista, então tem algum tempo para pesquisar. Procura de lá, procura daqui e finalmente acha uma sapatilha bonitinha por R$ 20,00.

“É todo meu reserva mais a passagem! O que vou fazer?” Ligou então para seu namorado, que é taxista, explicou a situação que passou e ele diz que vai buscá-la depois sem problemas. Zuleide fica aliviada, paga o sapato e vai rumo ao escritório de advocacia. “Não era aquele scarpim lindo que a assaltante mocréia levou mas dá pro gasto”.

Andando até a Avenida Rio Branco, onde ia ser a entrevista, viu uma nuvem branca enorme se aproximando. O que era branco virou cinza e o que era cinza ficou preto em menos de 5 minutos. Começa a cair uns pingos de água do céu e Zuleide procura pelo guarda-chuva que não acha na bolsa. “Só me faltava essa!”

Mal terminou a frase e cai um pé d’água, mandando o cabelo arrumado pela chapinha embora. Ensopada, chega ao escritório, pede desculpas pelo estado mas é informada que a entrevista foi ontem e que a candidata já tinha sido escolhida. Soltou mais um “Tá de sacanagem!” e foi embora.

Esperou pelo namorado taxista e voltou para casa. Ao relatar tudo que aconteceu para a mãe, a senhora tratou de pegar o Santo Antônio, virá-lo de cabeça para baixo e jogá-lo no armário.

– Mãe, depois de tudo isso você pensa em casamento?!?!

– Não minha filha. É castigo mesmo. E ele só sai de lá depois que se redimir com a gente.

– E devolver meu scarpim porque ainda estou pagando por ele. – completou a filha.

Esse foi mais um conto que tinha criado para o Concurso Contos do Rio, do Caderno Prosa & Verso e que acabei descartando porque só podia enviar um texto apenas. Também espero que você tenha gostado. 🙂

É um pássaro, um avião?

Valdir e Renan trabalham em uma loja de material escolar perto do Metrô da Carioca. Era quase 13h quando chega a quentinha que eles compraram do restaurante da esquina e param para comer sentados em dois banquinhos perto da loja.

Conversa vai, conversa vem e Valdir, com aquela cara de satisfação depois de um bom almoço, resolve olhar para o céu. Fica um tempo olhando para as nuvens que passavam quando Renan cutuca o rapaz e pergunta:

– Ô Valdir, que você tá olhando ali pra cima?

– Já reparou que se você prestar bem atenção as nuvens podem parecer algum objeto ou coisa?

– Claro. Já cansei de brincar disso quando era pequeno. Você não acha que tá meio grandinho pra isso não?

– Ah! Não implica não “bróder”. Espia só. Aquela, se você olhar bem, parece um carro. Sério! As quatro rodas, a carcaça, tudo. Repara.

– Ihhh é “mermo”. Aquela lá do lado esquerdo parece um quindão dentro de um prato. Posso até imaginar ele bem amarelo, brilhante com o coco embaixo…

– Tô vendo que o que tu “qué” é uma sobremesa. Mas hoje não tem a promoção almoço com sobremesa grátis.

– Sei. Uma pena…

– Caraca! Olha aquela nuvem gigantesca vindo para cá! Parece que vai engolir a rua toda!

– Bem que queria. Ia ser um ótimo lugar para tirar uma soneca.

– Ô se é! Podia também ter dentro uma televisão em forma de nuvem mas que desse para ver direito. Não ia ter graça se a tela também fosse branca!

– Além da televisão podia ter uma nuvem em forma de piscina mas com água de verdade. Um quiosque com cerveja, também de verdade, com pessoal/nuvem tocando um pagodinho e muita mulher/nuvem.

– De verdade, né?

– Sim senhor! Loira, morena, mulata, negra. Todas lindas e dando mole para gente. Dando petisco na boquinha com direito a umas bitoquinhas.

– Hehehehehehe. Falou tudo “bróder”.

– Mais tarde iria rolar uma festa na nuvem gigante! Todo mundo bem arrumado com um banquete dos deuses, DJ e tudo mais.

– Depois a nuvem viraria uma mega mansão toda em mármore. Móveis caros, banheira de ouro e carros, muitos carros na garagem.

– Quais seriam os carros?

– Qualquer um desses importados!

– Mandou bem!

– E como a gente “taria” numa nuvem poderíamos viajar para onde quiser.

– Tipo Curitiba?

– Não moleque! Outro lugares lá fora, como Nova York.

– Ou surfando no Havaí!

– Quem sabe até esquiando no Canadá, como naqueles jogos de inverno que passaram na TV.

– Ia ser demais.

– Pô, também tem aquele lugar maneríssimo, o…

Nessa hora aparece Seu Plínio, o dono da loja, e grita para os rapazes:

– Vocês dois! Já passou a hora do almoço! Deixem de conversa e voltem ao trabalho!

Renan vira para Valdir e diz:

– Caramba, Seu Plínio fez a gente cair da nuvem gigante…

– E de cara para o chão! Tava tão bom imaginar todas aquelas coisas legais…

– Liga não Renan. Quando acabar o expediente a gente compra um algodão doce na carrocinha do lado. Pelo menos o que tem nessa nuvem a gente pode pagar.

– Hahahahaha. Pode crer. Fechou então.

Amanhã encerra o prazo de entrega dos textos para o Concurso Contos do Rio. O Caderno Prosa & Verso irá eleger dez contos que serão publicados no jornal, sendo que os três primeiros lugares leverão prêmios em dinheiro.

Eu resolvi tentar. Sei que serão milhares de inscrições mas a esperança é a última que morre, não é mesmo? Tinha escrito três contos mas como só pode enviar um, resolvi então postar os outros dois que deixei de fora da disputa aqui no blog. Gostaram? Espero que sim, porque depois virá mais um. 🙂

Quem diria Seu Nélio

Parte 4

– E agora? Como vou até lá?

– Deixa eu ver Nélio….E se a gente inventar alguma coisa que fosse vantajosa para o seu pai?

– Gostei demais sô!

– A gente pode falar que ouviu uns homens querendo fazer negócio com seu Damião e iríamos atrás para ver se era verdade.

– Não. Meu pai ia querer vir com a gente.

– E estamos no meio da semana. Seu pai não ia gostar nem um pouquinho de ver cê matando aula.

– Raí! É isso!

– Isso quê?

– A gente vai matar aula amanhã!

– Ta doido sô? Se meu pai descobre ajoelho no milho!

– Que nada! A gente finge que vai para escola e vai pra Mariana.

– Mas como?

– De carroça, uai!

– Que carroça?

– É só pegar uma carona de quem for sair da cidade.

– Não sei não….

– Deixa de ser medroso, Raí.

– Não sou medroso nada! Amanhã vamos até essa cidade encontrar a tal menina.

– “A tal menina” não! O nome dela é Cecília.

Dito e feito. No dia seguinte foram os dois até a cidade arrumar alguém para levá-los até Mariana. Ficaram alguns minutos a procurar alguém quando viram Seu Augusto descarregando mercadoria. Ele também tinha uma mercearia e mais uma na cidade de Ouro Preto. Já que ficava perto de Mariana, resolveu dar uma palavrinha com ele:

– Seu Augusto, o senhor está indo para Ouro Preto?

– Agorinha mesmo mas por quê?

– O senhor podia dar carona para gente? Queremos parar em Mariana.

– Quê cês vão fazer lá?

– Ele quer ver uma garota – disse Raimundo

– Ahhhh tinha que ter uma rapariga nessa história. Cês não era para ta na escola?

– Por favor Seu Augusto! Preciso encontrá-la!

– Ta bom. Já fui jovem também sabia? Vamos, sobem aí.

Acabaram combinando um certo horário para se encontrarem na mercearia do Seu Augusto em Ouro Preto que ele ia levar os meninos de volta. O coração de Nélio batia forte a cada trote que os cavalos davam. Chegaram em Mariana. Seu Augusto se despediu dos meninos e desejou boa sorte a Nélio. Lá foram os dois a procura de Cecília. Na verdade era a procura de Seu Waldir da Silva. Isso dava um certo medo.

Pararam em frente a uma igreja. Nélio lembrou do que Raimundo disse, que se tem alguém que conhece todo mundo esse alguém é o padre. Entraram na igreja e por sorte o padre estava a arrumar a paróquia.

– Boa tarde padre.

– Boa tarde meus filhos. Vocês não são daqui, são?

– Não. Somos amigos da família de Waldir da Silva. O senhor sabe aonde ele mora?

– Sei sim. É só descer essa rua aqui e virar à direita. Você vai ver uma casinha azul com o portão branco. Lá mora a família.

“Estou a poucos metros de Cecília, nem acredito”, pensou Nélio.

– Obrigado seu padre.

Os dois pediram a benção e seguiram até a casinha azul. Ao chegar Nélio ficou parado em frente ao portão tremendo de medo. Medo por encontrar Cecília. Medo de encontrar o pai de Cecília. Raimundo vendo o amigo que nem estátua resolveu bater as mãos para ver se alguém atendia. Apareceu uma menina, aparentando uns 13 anos que falou:

– É você! O menino que gosta de Cecília! Cecília vem cá!

Cecília apareceu. Nélio não conseguia respirar. Olhou para sua donzela e disse:

– Lembra de mim Cecília?

A moça olhou para Nélio com muita mais muita vergonha. Não sabia o que responder. Esfregou suas mãos, olhou para ele e disse:

– Sim.

Nélio não podia acreditar que finalmente tinha escutado a voz de Cecília. Uma voz meiga e suave. Então, toda sua coragem apareceu e finalmente conseguia dizer a ela o que estava sentindo:

– Pode parecer estranho eu ter vindo até aqui mas eu tinha que te ver mais uma vez. Desde que te vi na festa de São João não parei de pensar em você um só minuto. Você é verdadeiramente a menina mais bonita que já conheci.

Cecília ficou encabulada pela declaração mas, mesmo assim, conseguiu falar:

– E você tem a voz mais bonita que já conheci. A música que você tocou me emocionou muito.

– Eu ia cantar outra mas quando vi você na platéia acabei trocando e escolhendo àquela.

– A que fala sobre amor…

-…à primeira vista.

Pronto. Os dois estavam apaixonados um pelo outro. Agora não tinha mais jeito. Raimundo estava meio entediado de escutar toda aquele conversa melosa. Entediado e enjoado. Sentou na grama em frente a uma árvore perto da casa de Cecília e ficou a observar a rua. Vi um homem que dava passos largos e rápido Cada vez mais se aproximava. Estava com uma aparência muito zangada. Percebeu que olhava fixamente para Nélio e Cecília. Ele notou que era uma homem bem mais velho, não podia ser namorado ou pretendente da menina. Tinha idade suficiente para ser seu pai. “Pai? Ai minha Nossa Senhora! Danou-se!”. Dei um pulo e saiu em disparada para falar com Nélio.

Perdeu a Parte 1, 2 e 3? Veja então aquiaqui e aqui.

Quem diria Seu Nélio

Parte 3

Ao virar para direita voltando em direção a quermesse da Dona Branca, viu alguém com o mesmo vestido rosa florido subindo em uma carroça. Lá estava a sua musa. Correu mais uma vez e ao chegar só conseguiu dizer. “Você é linda”. Até porque tava quase sem fôlego para dizer alguma coisa. O pai da menina percebeu e mandou todas as três filhas subirem logo. Rapidamente deu ordem para o cavalo galopar e quando estavam indo Nélio disse:

– Qual o seu nome?.

Uma das irmãs da menina gritou:

– Ela se chama Cecília Maria da Silva!

A garota ficou muito tímida e tapou a boca da irmã para ela não falar mais nada. E foram as três rindo sem parar e o pai, muito contrariado, junto com a mãe que tentava acalmar a fera.

“Cecília Maria da Silva, tenho que ver você de novo”, pensou Nélio. Ele estava realmente apaixonado e determinado a encontrar sua amada de qualquer jeito. Ficou o dia todo a pensar em Cecília. Nem ligou para as festividades da cidade. Vendo que Nélio não estava se divertindo, Raimundo dá um tapinha nas costas do amigo e pergunta:

– Ô Nélio! O que tu tem? Parece que tá longe.

Nélio leva um susto, volta para a realidade e diz:

-To longe mesmo, seguindo Cecília.

– Quem é Cecília?

– A menina que me viu cantar. Cê não viu?

– Não. Ela era bonita?

– Vixe. Danada de linda. Uma formosura que só vendo.

– É daqui?

– Acho que não. Pior que não sei aonde ela mora.

– Ah! Pergunta para o padre Venâncio. Ele conhece Deus e o mundo.

– Ele realmente conhece “Deus” e o mundo, hehehehehe.

– Então, fala com ele que ele vai te ajudar.

Nélio então tratou de acordar bem cedinho no dia seguinte, ajudar a mãe na horta, o pai na roça, tirar os leites da vaca para depois seguirem até a mercearia do Seu Luis. Passado aquele susto das pragas, Damião pode voltar com os afazeres do campo. Luis até tentou convencê-lo a continuar trabalhando na mercearia mas Damião disse que seu lugar é na roça. “O cheiro de terra me anima. É mió que cheiro de café fresquinho”, disse.

Terminado as tarefas da manhã, Nélio e seu pai seguiram para cidade. Entregou tudo para Seu Luis e foi correndo para a igreja. Disse para o pai que era para agradecer pelas pragas não terem mais voltado mais desde aquele triste episódio. Mal sabia o pai que ia fazer um padre virar cupido. “Espero que não seja pecado”, pensou o rapaz.

Chegando na igreja, o Pe. Venâncio estava terminando a missa das oito horas. Nélio ficou lá no fundo esperando acabar e aproveitou para rezar e pedir a Santo Antônio que fizesse encontrar sua bela Cecília. Santo Antônio era o santo casamenteiro e se funcionava com as moças, por que não funcionar com os rapazes também?

Pe. Venâncio deu a benção final e as pessoa foram saindo da paróquia. Nélio foi se aproximando, deu bom dia ao padre, pediu a benção e foi direto ao assunto:

– Padre, o senhor, por acaso, conhece uma menina chamada Cecília Maria da Silva?

– A Cecília da família do Seu Waldir mais Dona Rita e suas três filhas?

Nélio não sabia o nome de ninguém da família. Será que era essa a sua Cecília?

– Bom, ela estava ontem na festa de São João. Usava um vestido rosa florido, tem cabelos pretos e bem lisos e usava uma fita branca na cabeça.

– Pois é essa a Cecília. Antes de ser padre daqui trabalhei muitos anos na Igreja da cidade dos Silva. Vi Cecília nascer. Na semana passada falei da festa de São João para eles e resolveram dar uma passada aqui.

– Então é ela! Onde ela mora? Qual o nome da cidade?

– Por que você quer saber disso, meu filho?

– Bem, é que…sabe….humm….o Seu Silva quer comprar o nosso leite e ele acabou se desencontrando comigo mais meu pai e não acertamos o negócio.

– Nélio, Nélio. Mentir para um padre dentro de uma igreja é um pecado muito grave.

– Ta certo padre Venâncio. Me apaixonei por Cecília. Ela é a menina mais linda que já vi.

– Menino, você realmente está apaixonado? Já ouvi falar dos seus namoricos. Ela é moça prendada e de família.

– Não padre! Eu realmente estou apaixonado. Mais que isso, estou amando.

– Vejo a sinceridade em seus olhos. Vou falar o nome da cidade onde vive os Silva mas espero que não me arrependa.

– Serei o cavalheiro mais cavalheiro desse mundo!

– Olha lá. Bom, ela e a família moram em Mariana. Chegue lá e pergunte por Seu Waldir da Silva

– Muito obrigado Pe. Venâncio.

– Juízo meu filho! Deus está de olho!

Nélio decidiu que depois da escola iria em Mariana procurar por Cecília. Não via a hora. Mas tinha que pensar em alguma coisa para despistar a família. “Como vou convencê-los a ir até Mariana?”. Resolveu buscar a ajuda do seu bom e velho amigo Raí.

Perdeu a Parte 1 e 2? Veja então aqui e aqui.